quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Versões Religiosas para a Origem do Mundo, dos seres viventes e outros entes

Oni de Ifé. Escultura Iorubá dos séculos XV-XVI
A Origem do Mundo e dos Humanos para os Iorubás

"Tudo começou quando Olorum (Deus Supremo) se remexeu, se espreguiçou, cirando uma enorme massa de água. Essa água era Oxalá, o primeiro da grande família dos orixás funfun, os orixás de branco. (...)

Olorum criou Oduduwa e depois mais cento e cinquenta e dois orixás funfun. Chamou o primeiro orixá do Universo e disse:

- Vá Oxalá! Tome o saco da criação e vá criar o Aiyê, o mundo! (...)

Oxalá (...) partiu com os outros orixás. No caminho, porém, encontrou Exu, que se pôs diante dele e perguntou:

- Fez sua obrigação? Onde estão as oferendas necessárias para a viagem?


- Não quero lhe dar nada!, respondeu Oxalá.

Exu não gostou nem um pouco da atitude do orixá. (...)

- Vou dar uma lição nesse orixá, pensou Exu. - Vou fazer a boca dele secar!

Oxalá, durante a caminhada, começou a sentir uma sede horrível (...). Mal conseguia andar quando avistou uma palmeira (...). Furou o tronco da árvore. Um líquido jorrou, era vinho de palma. Oxalá bebeu, bebeu tanto que ficou bêbado e adormeceu. (...)

(Enquanto isso,) o Deus Supremo (...) percebeu que havia esquecido de colocar no saco da existência que dera a Oxalá um dos ingredientes principais para criação do Aiyê.

- Ainda bem que você está aqui, Oduduwa. Esqueci de dar esta substância à Oxalá! - disse Olorum, passando às mãos de Oduduwa um saquinho. - Vá e entregue a ele. Oduduwa foi. Andou um tempo e encontrou Oxalá desmaiado por causa da bebida. (...)

- Se Oxalá está tão bêbado assim - exclamou Olorum - então vá, Oduduwa, pegue o saco da criação e vá criar o Aiyê.

Oduduwa foi. Quando chegou, (...) despejou o que havia no saco. Era terra. Um grande monte se formou e seu cume ultrapassou a superfície d água. Oduduwa colocou as galinhas naquele monte. Elas começaram a ciscar, a arranhar e a espalhar terra sobre a água, formando o mundo.

Quando Oxalá acordou e soube que Oduduwa já havia criado o mundo, (...) foi se queixar a Olorum, o Deus Supremo, para consolar o orixá, deu a ele outra missão. (...)

- Oxalá, você vai modelar os seres que vão morar no Aiyê (...). Mas, como castigo, fica proibido de beber vinho de palma e de usar o aceite da palmeira do dendê.

O orixá foi para a Terra. Com o barro, começou a modelar os peixes, as aves, as árvores, os homens e todos os seres vivos. Contam, porém, que, enquanto modelava os homens, Oxalá, escondido, bebia vinho de palma. Ficava embriagado e errava na medida. Por isso, os homens saíram de muitos tipos e tamanhos, e outros sem cor, pois ele os tirava do forno antes da hora. Foi assim que aconteceu."
- CHAIB, Lídia; RODRIGUES, Elizabeth. Ogum, o rei de muitas faces e outras histórias dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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Foto: Michel Pellanders, 1987.
O Origem do Mundo e dos Humanos para a nação indígena Arara.

"... Para eles, quando essa vida ainda não havia começado, existiam somente o céu e a água. Separando-os, uma pequena casca que recobria o céu e servia de assoalho a seus habitantes. Na casca do céu a vida era plena, pois havia de tudo para todos.

A boa humanidade, protegida pela divindade Akuanduba, vivia conforme as coisas básicas da vida: acordar, comer, beber, namorar, dormir. Se alguém cometesse algum excesso, contrariando as normas, a divindade fazia soar uma pequena flauta, chamando a atenção de todos para que se comportassem de acordo com a boa ordem.

Fora da casca do céu, existiam coisas ruins, seres atrozes e espíritos maléficos, contra os quais a boa humanidade estava protegida por Akuanduba. Houve um dia, no entanto, que ocorreu uma grande briga da qual participou muita gente.

A divindade fez soar a flauta, mas a multidão teimosa não quis parar de brigar. Nessa confusão, a casca do céu se rompeu, lançando tudo e todos para longe, para dentro da água que envolvia a casca. Com a queda, todos perderam e todos os velhos e crianças morreram, restando apenas uns poucos homens e mulheres. Dos sobreviventes, alguns foram levados de volta ao céu por pássaros amazônicos, onde se transformaram em estrelas.

Os que ficaram, foram abandonados pelos pássaros nos pedaços da casca do céu que caíram sobre as águas. Assim, surgiram os Araras que, para se manter afastados das águas, escolheram ocupar o interior da floresta.

Até hoje, os Arara, habitantes do vale dos rios Iriri-Xingu, no Estado do Pará, assobiam chamando as araras quando as vêem voando em bandos por sobre a floresta. Quando pousam no alto das árvores, as araras, por sua vez, observam os índios e, ao notarem o quanto eles cresceram, desistem de levá-los de volta ao céu.

Aqui já foram deixados outras vezes e aqui deverão permanecer. Os Arara, que antes viviam como estrelas, estão agora condenados a viver como gente, tendo que perseguir o alimento de cada dia em meio aos perigos que existem sobre o chão."
- Ieipari - Sacrifício e Vida Social Entre Os Índios Arara, Márnio Teixeira Pinto, Ed. UFPR, 1997.

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Rembrandt, Abraão e Isaac, 1634.
A Origem do Mundo e dos Humanos segundo os Hebreus

"No início de tudo, a Terra era só solidão, caos e um abismo coberto pelas trevas.

Somente sobre as águas pairava o sopro divino. Tudo permaneceu assim, até que Deus resolveu criar a luz, chamando-a de dia. Criou o céu, e chamou de mares a junção das águas. Gostou do que fez.

Ordenou que germinassem da terra vegetação e ervas e que elas produzissem sementes e árvores frutíferas. Essas árvores deveriam também dar frutos da sua espécie, com a própria semente dentro de si.

Quis que as estrelas surgissem no céu para que sua luz fosse projetada sobre a Terra. A maior estrela foi chamada de Sol e era ela que dominaria o dia.

Nas águas e na terra, surgiram animais viventes. Deus, então, disse: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, e tenha ele poder sobre todos os animais, aves e peixes". Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas, dando-lhe a vida. Chamou-lhe de Adão. Depois fez cair sobre ele um sono pesado. Tomou uma de suas costelas e dela formou a mulher.

Deus contemplou tudo o que tinha feito e, no sétimo dia, deu por terminada a sua obra. Assim, descansou.
- Bíblia. Gênesis, capitulos 1 e 2 (Adaptado).

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A grande Cidade de Tenochtitlan. Diego Rivera, 1945.
A Origem do Mundo e dos Humanos segundo os Astecas


Pai e Mãe viviam nas trevas, junto do vento frio. A mãe queria que fossem criados os deuses, mas para isso era necessário criar a Terra. O pai criou a Terra, e com isso surgiram, além dos deuses, as águas, os humanos, os animais e as plantas. Porém, não demorou para que os deuses e os humanos reclamasse da escuridão e do frio. Estava faltando o Sol. No entanto, para que ele aquecesse e iluminasse a Terra, era necessário o sacrifício de humanos e deuses. Durante muito tempo, eles resistiram em matar alguém. Porém, não suportando mais o frio e a escuridão, o deus mais debilitado e infeliz se ofereceu em sacrifício. Seu corpo foi queimado e as cinzas enviadas ao céu. O Sol então surgiu, aquecendo e iluminando parte da Terra. Mas, para que ele percorresse todo o céu, eram necessários mais sacrifícios. Por isso, os deuses e humanos aceitaram sacrificar seus filhos para o Sol continuar a aquecer e a iluminar o planeta.
- ARRABAL, José. O livro das origens. São Paulo: Paulinas, 2001.

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Nação Vanuatu, Melanésia.
A Origem do Mundo e dos Humanos segundo alguns povos da Melanésia

O enorme rochedo solitário explodiu, liberando Qat, o Espírito criador. Essa explosão provocou o primeiro ruído e o primeiro movimento que perturbaram o Universo Primitivo. a Terra já existia, mas era apenas um deserto árido, ardente, sob uma luz perpétua; nenhuma maré agitava o oceano, nenhuma nuvem deslizava pelo céu. Qat, Espírito ativo e engenhoso, deitou imediatamente mãos à obra. Primeiro criou a vegetação: à sombra das grandes árvores, a luz atenuou-se, o mundo tornou-se habitável. Em seguida, Qat deu vida aos animais, começando pelos porcos que constituíram um bom alimento. Só então decidiu criar a espécie humana. Para tal, talhou numa árvore três homens e três mulheres. Qat esculpiu-os cuidadosamente e, em seguida, ocultou as estátuas entre as árvores, para que não rachassem sob o efeito do calor. Quando as estátuas já se encontravam suficientemente secas, Qat regressou para junto delas, tocando tambor e dançando. (...)
aos poucos as estátuas de madeira animavam-se: Qat acabava de dar-lhes vida.
- RAGACHE, Claude-Catherine. A criação do mundo. Tradução Ana Maria Machado. São Paulo: Ática, 1992.


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No princípio das coisas, não havia nada, nem o homem, nem animais, nem plantas, nem céu, nem terra. Mas Deus existia e se chamava Nzame. No princípio, Nzame fez o céu e a terra e reservou o céu para si. Em seguida, ele soprou sobre a terra, e o chão e água foram criados, cada qual ao seu lado.

Nzame fez tudo: céu, terra, sol, lua, estrelas, animais, plantas, tudo. Quando terminou aquilo que vemos hoje, chamou Mebere e Nkwa e lhes mostrou sua obra.

- Esta é minha obra. Está boa?

Eles responderam: - Sim, você fez direito.

- Mas ainda falta alguma coisa.

Mebere, Nkwa responderam a ele: - Vemos muitos animais, mas não o chefe deles; vemos muitas plantas, mas não a senhora delas.

Para senhores de todas essas coisas, eles designaram o elefante, porque tinha sabedoria; o leopardo, porque tinha vigor e astúcia; e o macaco, porque tinha malícia e agilidade.

Mas Nzame queria fazer uma coisa ainda melhor e, trabalhando juntos, ele, Mebere e Nkwa criaram um ser quase como eles mesmos. Um lhe deu poder, o segundo, autoridade e o terceiro, beleza. Estão os três disseram:

- Fique com a terra para si. Daqui por diante você é o senhor de tudo que existe. Como nós, você tem vida, todas as coisas lhe pertencem, você é o senhor.

(...)

Nzame, Mebere e Nkwa deram ao primeiro homem o nome de Fam, que significa "poder".

Orgulhoso de sua autoridade, de seu poder e de sua beleza - porque nessas  três qualidades ele suplantava o elefante, o leopardo e o macaco -, de sua capacidade de derrotar todos os animais, o primeiro homem tornou-se perverso; ficou arrogante e não queria mais cultuar Nzame.

(...)

Furioso, Deus chamou Nzalan, o trovão. - Nzalan, venha cá! - Nzalan veio correndo com grande estrondo: bum bum bum! O fogo do céu caiu sobre a floresta. As plantações queimaram como tochas enormes. Fu, fu, fu! - tudo em chamas. (...) Mas quando Deus criou o primeiro homem, ele lhe disse; - Nunca morrerás. - E o que Deus dá Deus não tira. O primeiro homem foi queimado, mas nada sabe o que deu dele. Está vivo, sim, mas onde?

Mas Deus olhou para a terra, toda preta, sem nada, um vazio; sentiu-se envergonhado e quis consertar. Nzame, Mebere e Nkwa reuniram-se e fizeram o seguinte: sobre a terra preta coberta de carvão colocaram uma nova camada de solo; uma árvore cresceu, cresceu mais e mais, e, quando uma de suas sementes caiu, outra árvore nasceu; quando uma folha se desprendeu, ela cresceu mais e mais e começou a andar. Era um animal, um elefante, um leopardo, um antílope, um cágado - todos eles. Quando uma folha caiu na água, ela nadou; era um peixe, uma sardinha, um caranguejo, uma ostra - todos eles. A terra voltou a ser o que tinha sido e é ainda hoje.

Mas Nzame, Mebere e Nzwa reuniram-se de novo; precisavam de um chefe para comandar os animais. - Devemos fazer um homem como Fam - disse Nzame, - as pernas e braços, mas devemos mudar a cabeça dele, e ele conhecerá a morte.

Esse foi o segundo homem e pai de todos. Nzame chamou-o de Sekume, mas não quis deixá-lo sozinho, então disse: - Faça uma mulher para você de uma árvore.

Sekume fez uma mulher para si, e ela andou, e ele a chamou de Mbongwe.
FORD, Clyde W. O herói com rosto africano: mitos da África. São Paulo: Summus, 1999.

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Observação: Os documentos coletados oralmente estão organizados no tópico "Pré-História", mas não necessariamente são fontes originadas neste período histórico. Datar tais explicações é tarefa demasiado exaustiva, senão impossível ou no mínimo complexa. O motivo que explica, portanto, o uso do "Marcador" decorre da mera conveniência de que tais explicações para a origem do mundo, dos seres humanos e outros viventes introduzem discussão feita em sala de aula sobre o início dos trabalhos históricos com os alunos e alunas.

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